Associação Brasileira de Horticultura | Quarta-feira, 17 de Janeiro de 2018  
 
 
 
 



PANORAMA ATUAL DA CADEIA DE PRODUÇÃO DE HORTALIÇAS NO BRASIL
Autor: Prof. Dr. Paulo César Tavares de Melo
Prof. Dr. Paulo César Tavares de Melo
USP/ESALQ - Departamento de Produção Vegetal
Presidente ABH


O objetivo dessa palestra é traçar o estado da arte do agronegócio de hortaliças no Brasil destacando as transformações decorrentes da inserção do país no novo cenário desencadeado pela globalização da economia. Com efeito, esse processo causou alteração em todos os elos da cadeia produtiva de oleráceas, possibilitando avanços tecnológicos e estruturais ao mesmo tempo em que expôs os gargalos que ensejam superação para melhorar a sua competitividade.

Em 2004, o valor de produção das hortaliças, no Brasil, foi estimado em R$ 11.696 milhões. A área cultivada alcançou 776,8 mil gerando uma produção total de 16.086 mil toneladas. Três quartos do volume de produção concentram-se nas regiões Sudeste e Sul enquanto o Nordeste e o Centro-Oeste respondem pelos 25% restantes. Na região Norte, a produção de hortaliças é incipiente e os mercados consumidores são abastecidos por produtos oriundos, principalmente, do Nordeste e Sudeste. Estima-se que 8 a 10 milhões de pessoas dependam do agronegócio de hortaliças.

A característica mais marcante da exploração olerícola que a diferencia de outros setores do agronegócio, advém do fato das hortaliças constituírem um grupo de plantas com mais de uma centena de espécies, cada uma com diferentes segmentos varietais. Ademais, a maior parte da produção (60%) está concentrada em propriedades de exploração familiar com menos de 10 ha.

Como atividade agroeconômica, diferencia-se, ainda, por exigir altos investimentos, em contraste com outras atividades agrícolas extensivas. De outro lado, permite a obtenção de elevada produção física e de altos rendimentos. Outras peculiaridades dos empreendimentos olerícolas são a intensa utilização de tecnologias e de insumos modernos, em constante mudança. Essa atividade também se caracteriza por ser de alto risco devido a maior ocorrência de problemas fitossanitários e maior sensibilidade às condições climáticas adversas. Deve ser destacado, ainda, que o perfil do consumidor de hortaliças, sobretudo, nos grandes centros de consumo, vem se tornando mais exigente não apenas quanto à qualidade organoléptica, mas, também em relação a contaminações químicas e biológicas. Observa-se, ainda, o interesse do consumidor por novidades na área alimentar. Em resposta a essa tendência, o mercado de hortaliças vem se segmentando, com destaque para as não convencionais, minimamente processadas, supergeladas, congeladas, conservadas, hidropônicas e orgânicas.

Um dos grandes gargalos da cadeia produtiva de hortaliças está nas perdas pós-colheita. Dados da Embrapa revelam que no Brasil os níveis médios de perdas atingem 35 a 40%, enquanto, por exemplo, nos Estados Unidos, não passam de 10%. Iniciativas para reduzir essas perdas que provêm da colheita, contaminação, acondicionamento e armazenamento inadequados no campo e nos atacadistas, vêm sendo adotadas, destacando-se embalagens alternativas às caixas de madeira e tecnologias de conservação pós-colheita (atmosfera modificada, conservação a frio).

Quanto às mudanças nos canais de distribuição de hortaliças, destaca-se a iniciativa dos grandes varejistas que têm instalado centrais próprias, onde as compras são feitas, em geral, diretamente dos produtores ou atacadistas especializados. Esses novos canais surgiram pela necessidade de eficiência no suprimento de hortaliças para as redes de auto-serviço. Contudo, tais mudanças na estrutura de comercialização têm impactos negativos para a cadeia de hortaliças levando à exclusão de produtores incapazes de atender às exigências das centrais de compras de grandes redes varejistas. Além disso, considerando os pontos de venda ao consumidor final, as mudanças implantadas tornam difícil a sobrevivência de pequenos varejistas em um mercado onde poucas grandes redes dominam as fontes mais eficientes de suprimento em termos de qualidade, logística e demais ferramentas gerenciais. Todavia, percebe-se um desequilíbrio quanto ao poder de barganha exercido pelas grandes redes de auto-serviço sobre seus fornecedores, revelando a necessidade de um modelo mais justo de comercialização para ambas as partes.

Finalmente, diante de um cenário em que as mudanças ocorrem de maneira permanente, é necessário fortalecer os papéis da pesquisa e da extensão rural como instrumentos potencializadores da melhoria de toda a cadeia, garantido a sua competitividade e sustentabilidade enquanto atividade inserida no agronegócio de grande alcance econômico e social.


Palestra proferida em 24 de março de 2006 na 6ª Reunião Ordinária da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Hortaliças - CNPA / Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), Brasília, DF.

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