Associação Brasileira de Horticultura | Terça-feira, 16 de Janeiro de 2018  
 
 
 
 



ÁGUA: BEM NÃO-RENOVÁVEL
Autor: Prof. Paulo César Tavares de Melo
É preciso implementar ações que contribuam para uma agricultura sustentável que produza alimentos, porém, que preserve os recursos hídricos



Em 12 de abril de 1961, o cosmonauta soviético Yuri Gagarin, aos 27 anos, entraria para a história como o primeiro homem a fazer uma órbita completa no nosso planeta a bordo da cápsula espacial Vostok 1, em um curto vôo de 108 minutos. “A Terra é azul!”, foi a exclamação de Gagarin pelo rádio quando avistou o nosso planeta do espaço. A rigor, Gagarin confirmou o que os cientistas há muito tempo já sabiam. A Terra, vista do espaço, é azul porque 70% de sua superfície encontram-se cobertos por água que, por sua vez reflete a luz da atmosfera. Desse total, 97,5% constituem-se de água salgada e apenas 2,5% de água doce, sendo que desse percentual, 30,2% podem ser utilizados para garantir a vida vegetal e animal nas terras emersas.

O planeta azul que Gagarin, em seu vôo solitário contemplou lá de cima há 47 anos, tinha aproximadamente 3 bilhões de habitantes que dependiam de apenas 0,008% do total de água diretamente disponível para as suas demandas em escala mundial. O problema é que, de 1961 para os dias de hoje, a população mundial cresceu em um ritmo exponencial tendo alcançado 6,3 bilhões de habitantes, e as previsões para daqui a vinte anos é que salte para 8 bilhões. É evidente que esse contínuo aumento populacional representa o maior dilema que a humanidade enfrenta na atualidade: a necessidade de produzir cada vez mais alimento, fibras e biocombustíveis para uma população que não pára de crescer e, para tanto precisa dispor de água de qualidade. Por conta dessa situação, os cientistas têm alertado sobre duas sérias ameaças para a humanidade nesse século: o aquecimento global e a iminente escassez de água em diversas regiões do mundo. O Brasil detém 14% das reservas de água doce da Terra, mas territorialmente encontram-se muito mal distribuídas, estando 90% delas concentradas na região Norte, onde vivem apenas 10% da população do país.

O biólogo especialista em estudos populacionais, Paul Ehrlich, da Universidade de Stanford, Estados Unidos, autor do best seller “A Bomba da População” (1968), em entrevista concedida ao jornalista Marcelo Leite, da Folha de São Paulo (Caderno Especial Ano 2000 – Água, Comida e Energia, 02/07/1999), alertava que “evitamos fomes gigantescas nos últimos 50 anos porque nos dedicamos a um sistema agrícola insustentável, que agora está ameaçado não só por pragas ressurgentes e terras irrigadas saindo de produção por causa de salinização, mas também pelo espectro da mudança climática global”. Sobre o uso da água, Ehrlich afirma que “a água poderá tornar-se o fator limitante para a produção de alimentos, mas vai depender de nossa sagacidade ao usá-la”. Finaliza dizendo que “o planeta poderia agüentar entre 1 bilhão e 2 bilhões de pessoas; estamos, portanto, muito acima da capacidade de suporte da Terra, e só damos conta de sustentar 6 bilhões de pessoas porque estamos esgotando nosso capital, não apenas carvão e óleo, mas os solos ricos para a agricultura, as reservas de água subterrânea e a biodiversidade que sustentam nosso sistema de vida”.

O que chama atenção nessa entrevista, é o fato que foi concedida há quase uma década e a única coisa que parece clara até agora é que o contínuo crescimento populacional e a maior demanda de água para usos agrícola e industrial têm contribuído para o aumento do consumo de água em escala global.

O Instituto Internacional da Água, em Estocolmo, alerta para “uma aguda e devastadora crise humanitária devido à escassez de água”, e o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, levantou o espectro de “uma guerra por água” (Revista Carta Capital, SP, 19/11/2008). Esse imperativo tende a se tornar ainda mais complexo com as mudanças climáticas previstas para esse século.

Os sinais são claros e não se pode mais postergar a implementação de ações que contribuam para uma agricultura sustentável, que produza alimentos, incluindo hortaliças, fibras e biocombustíveis, sem que essa atividade contribua para o aumento do desmatamento, do consumo de água, do uso de defensivos agrícolas e das emissões de CO2. A expansão, por exemplo, do plantio direto na palhada em grandes culturas e até mesmo na produção de hortaliças, traz vantagens ao meio ambiente como a preservação dos recursos hídricos, controle da erosão, economia de água e de combustível. Produtores de tomate de mesa e para processamento industrial, cebola e beterraba do Centro-Oeste e do Sudeste já vêm adotando esse sistema de cultivo com sucesso.

A ABH entende que todas essas questões são essenciais para o desenvolvimento do Brasil e de importância vital para o futuro do planeta. Por isso, o tema escolhido para o próximo Congresso Brasileiro de Olericultura, o 49º CBO, foi “Água na Horticultura: Novas Atitudes e Uso Sustentável”. O evento será realizado em Águas de Lindóia, estado de São Paulo, de 03 a 07 de agosto de 2009. Os participantes do evento serão levados a refletir sobre a quantidade e qualidade de água utilizada nos sistemas produtivos de hortaliças, plantas medicinais, aromáticas e condimentares. Além disso, serão incluídos na programação debates sobre a Lei Federal 9.433 de 08 de janeiro de 1997 e Lei Estadual 12.183 de 29 de dezembro de 2005 que tratam da cobrança pelo uso da água para a produção de alimentos a partir de janeiro de 2010. Entre as palestras e mesas redondas sobre o tema, se destaca a exposição de um projeto da Agência Nacional de Águas – ANA que visa conscientizar e formar “produtores de água”. Os produtores de hortaliças, plantas medicinais, aromáticas e condimentares presentes ao 49º CBO terão a oportunidade de debater com especialistas esses importantes assuntos que afetam diretamente a sua atividade.


Paulo César Tavares de Melo
Presidente da ABH

Sebastião Wilson Tivelli
Presidente da Comissão Executiva do 49º CBO


Fonte: Revista Cultivar HF, dezembro 2008 – janeiro 2009, Ano VIII, Nº 53, p.35.






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