Associação Brasileira de Horticultura | Terça-feira, 16 de Janeiro de 2018  
 
 
 
 



REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA
Autor: Paulo César Tavares de Melo
A qualidade das sementes e o desempenho superior demonstrado pelas cultivares híbridas têm contribuído para a melhoria no perfil da olericultura nacional


O advento do milho híbrido na década de 1920, nos Estados Unidos, é considerado um marco na história do melhoramento de plantas pelo impulso propiciado a essa cultura em todo o mundo. O conceito de híbrido está intimamente relacionado com o vigor de híbrido (ou heterose) que pode ser definido como a expressão genética dos efeitos benéficos da hibridação entre parentais geneticamente divergentes. Em geral, o vigor de híbrido se manifesta em híbridos F1, ou de primeira geração filial, de forma tão marcante que testes estatísticos sofisticados não precisam ser utilizado para comprovar um desempenho superior frente às cultivares comuns em termos de uniformidade, elevado potencial produtivo, precocidade, resistência a doenças e tolerância a distúrbios fisiológicos.

As pesquisas subseqüentes à introdução do milho híbrido permitiram a exploração comercial do vigor de híbridos em várias espécies cultivadas de plantas de importância econômica, dentre as quais se destacam muitas hortaliças. Os primeiros híbridos comerciais de hortaliças foram desenvolvidos por melhoristas japoneses, na década de 1930. Entretanto, foi a partir de meados deste século, que se intensificaram no Japão, nos Estados Unidos e em alguns países da Europa, os esforços de pesquisa visando aprofundar os conhecimentos científicos sobre o vigor de híbrido e de métodos de controle da polinização para viabilizar, economicamente, a produção de híbridos F1 de hortaliças.

A rigor, o desenvolvimento e o emprego de cultivares híbridas F1, em larga escala, têm revolucionado a produção de hortaliças em todo o mundo. No Japão, atualmente, o uso de sementes de hortaliças híbridas F1 varia de 60 a 100% para as espécies de maior importância econômica. Em países como Estados Unidos, Canadá, Holanda, França, Inglaterra, Espanha, Itália e Israel, o uso de sementes híbridas é predominante na produção de cebola, tomate, pimentão, berinjela, pepino, melão, melancia, repolho, couve-flor, brócolos e milho-doce em condições de campo. Nos países líderes na produção de hortaliças sob cultivo protegido, como Espanha, Israel, Holanda e Chile, 100% das cultivares plantadas são híbridas. No Brasil, desde a abertura da economia, a partir do início da década de 1990, o uso de sementes híbridas de hortaliças tem mostrado crescente expansão, contribuindo para uma mudança radical do perfil da olericultura nacional. O processo de globalização da economia também exerceu papel relevante nessa mudança, com a chegada, ao país, de diversas empresas sementeiras que têm, em seu portfólio, híbridos de hortaliças de várias espécies. Vale lembrar que até há poucos anos, a utilização de hortaliças híbridas no país estava restrita, sobretudo, às culturas de repolho, couve-flor, cebola, berinjela, pepino e abóbora do tipo tetsukabuto. Como exemplos mais recentes e marcantes de conversão de cultivares de polinização aberta para híbridos, merecem destaque os segmentos de tomate para mercado e indústria, de melão amarelo, pimentão e pepino. Ademais, tem ocorrido, nos últimos anos, uma aceitação cada vez maior de híbridos de melancia, incluindo os tipos sem-sementes de frutos pequenos, brócolos de cabeça única, cenoura, beterraba, pepino, abobrinha e melão de diversos tipos varietais.

O sucesso dos híbridos deve-se, em grande parte, ao maior controle da qualidade dos lotes de sementes comercializados e que são produzidos em zonas de baixa incidência de doenças e de ocorrência de pragas. Além disso, é adotado um rigoroso esquema de remoção de plantas atípicas, operação executada antes da realização dos cruzamentos para obtenção das sementes híbridas. Outro fator importante é que as empresas sementeiras, usualmente, dispõem de programas de manutenção e multiplicação de estoques básicos de sementes das linhagens parentais, a fim preservar a pureza genética.

O lançamento de um novo híbrido é precedido por um intenso trabalho de pesquisa. Nesse processo, o melhorista identifica, entre centenas de cultivares híbridas experimentais, avaliadas em diferentes localidades e durante vários anos, um número reduzido (às vezes, apenas um único híbrido), que ofereça vantagens significativas em relação às cultivares que o produtor costuma plantar. De outro lado, é inegável que o dinamismo dos programas de pesquisa e desenvolvimento conduzidos pelas empresas líderes do setor, tem propiciado um fluxo permanente de lançamento de novos híbridos de hortaliças no mercado. Diante disso, o preço das sementes híbridas de hortaliças é significativamente mais caro do que o das cultivares comuns. Todavia, isso não tem sido um fator de entrave para a sua aceitação cada vez maior por parte dos produtores de hortaliças. Na verdade, o maior custo unitário da semente híbrida tem sido amplamente compensado pelos benefícios de sua utilização. As vantagens oferecidas pelos híbridos, na visão do produtor, estão diretamente relacionadas ao aumento da margem de receita líquida proporcionada pelo produto colocado no mercado. Ele leva em conta a relação custo vs. benefícios, onde precocidade, estande mais uniforme, maior rendimento comerciável, melhor padronização e qualidade, estabilidade de desempenho e maior resistência a doenças proporcionam-lhe vantagens competitivas no momento da comercialização.

O que se espera para o futuro próximo é que a nova geração de híbridos de hortaliças das empresas de sementes traga vantagens também para os consumidores. A expectativa é que os novos híbridos de tomate, melão, melancia, cebola etc. agreguem características gustativas superiores em relação ao que se encontra hoje no mercado. Além disso, a incorporação de características funcionais que têm ação antioxidante comprovada (por exemplo, maior conteúdo de licopeno em tomate e melancia e de betacaroteno em cenoura e abóboras), além de constituir real agregação de valor, trará grande beneficio para os consumidores.

Paulo César Tavares de Melo
Presidente da ABH


Fonte: Revista Cultivar HF, fevereiro-março 2009, Ano VIII, Nº 54, p.31.

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