Associação Brasileira de Horticultura | Domingo, 21 de Janeiro de 2018  
 
 
 
 



NOVOS RUMOS
Autor: Paulo César Tavares de Melo
Setor de hortifruti muda destino das exportações para driblar a crise mundial. O que antes seguia para a Europa e estados Unidos, hoje é investido nos mercados do Oriente Médio e da Ásia. Já o Brasil segue com o consumo abaixo da média recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS)


No início do ano passado estava em Petrolina, PE e um enorme Boeing 747 em vôo de baixa altitude, cruzando o céu azul da cidade, chamou-me a atenção. Fiquei sabendo que era o cargueiro que transportava frutas da região para a Europa. O gigantesco Jumbo decolava sempre no meio da tarde do aeroporto de Petrolina, em pleno sertão do São Francisco, e, na manhã do dia seguinte, aterrissava no aeroporto de Frankfurt, Alemanha. Ia carregado de uvas e mangas que os alemães, em pleno inverno, em poucas horas, podiam comprá-las ainda fresquinhas nos supermercados de suas cidades. O que me deixou intrigado foi saber que eles adquiriam essas frutas por preços menores que nós, brasileiros, independentemente de estarmos no Nordeste ou em qualquer outra região geográfica do país.

Fui informado ainda que o agronegócio de frutas da região ocupa 120 mil hectares de terras irrigadas pelas águas do São Francisco e responde por 42% das exportações de frutas do país. Um negócio que movimenta US$ 800 milhões por ano e emprega 240 mil pessoas. Os principais destinos das uvas, mangas e melões exportados são a Europa e os Estados Unidos.

Um ano depois, o cenário da região mudou completamente. O impacto da crise mundial financeira afetou em cheio as exportações. Os importadores europeus e estadunidenses, que financiavam a produção de frutas do vale do Rio São Francisco, por meio de adiantamentos de até R$ 300 milhões anuais em compras antecipadas, suspenderam as operações neste ano devido à crise. Estima-se que, somente as exportações de uva, poderão recuar até 35% em 2009. Em conseqüência, o promissor agronegócio exportador de frutas do vale passou a sentir os efeitos da crise financeira global, com produtores descapitalizados e milhares de trabalhadores demitidos. Para completar o cenário desanimador, analistas do setor avaliam que a dinâmica das exportações de frutas deverá permanecer desaquecida enquanto perdurar a crise.

Cabe perguntar por que o setor hortifrutícola não aproveita essa conjuntura desfavorável para conquistar o consumidor brasileiro. No entanto, representantes do setor já anunciaram que a queda na exportação de frutas não deverá favorecer o recuo dos preços no mercado interno. Segundo eles, o problema é complexo e se deve a fatores que vão da logística ineficiente à falta de poder aquisitivo dos consumidores. Portanto, o consumidor brasileiro vai continuar pagando mais caro que os estrangeiros pelas frutas made in Brazil.

O fato é que a crise mundial continua de vento em popa e o setor exportador de hortifrutis do país vislumbra como saída, a intensificação dos negócios no Oriente Médio e na Ásia. Será que não está na hora do setor empresarial repensar suas estratégias e passar a dar mais atenção ao mercado interno por meio de ações criativas que promovam o aumento do consumo desses alimentos essenciais à dieta humana? Na atualidade, cada brasileiro consome por dia apenas 130 e 170 g de hortaliças e frutas, respectivamente. Esses valores estão abaixo do mínimo recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) que são de 400 g/dia. Iniciativas como o recém lançado Projeto Frutas Paulista, promovido pelo Instituto Brasileiro de Frutas (IBRAF) em parceria com o SEBRAE-SP e uma distribuidora de frutas paulista, apresentado na coluna do IBRAF nesta revista, são louváveis, mas representam um esforço de alcance localizado. O ideal é que projetos como esse se disseminem por todo o país na forma de programas público-privados, contando com o apoio de entidades científicas, como a ABH e SBF.

Com efeito, a crise fez o mundo mudar. Se, antes, a dificuldade de exportar hortifrutis para os mercados europeu e norte-americano relacionava-se com entraves sanitários, hoje, começa a ganhar força outro tipo de barreira, a da sustentabilidade. Desse modo, passam a ter cada vez mais visibilidade os movimentos que pregam o consumo consciente, isto é, que questionam a quantidade de food miles ou ‘comida milhas’ que é necessária para determinado produto in natura chegar ao prato do consumidor. Sem dúvida, isso representa um novo paradigma no competitivo jogo exportador de frutas e hortaliças. A preocupação com o transporte de comida está relacionada às emissões de dióxido de carbono que contribuem para o aquecimento global. Por isso, no mundo desenvolvido se prega uma maior conscientização entre os consumidores no sentido de priorizarem a aquisição de hortifrutis produzidos localmente. Assim, o perfil do novo consumidor está sendo forjado para que ele entenda que as conseqüências do aquecimento global são globais, mas as soluções têm de ser buscadas localmente. Trata-se, a rigor, de uma política de consumo consciente que leva em conta a realidade dos limites ecológicos da Terra e à busca por uma vida sustentável.

Enfrentar esses desafios torna-se inadiável e envolve inovação, criatividade e imaginação, como critérios indispensáveis para repensar e mudar as estratégias e ações, por parte de todos os elos da cadeia produtiva de hortifrutis.

O tema central desse artigo será abordado no 5º Congresso Pan-Americano para a Promoção do Consumo de Frutas e Hortaliças, encontro anual entre os países do continente americano, que discute as estratégias para incentivar o consumo de hortifrutis com foco na promoção da saúde. O Ministério da Saúde em parceria com o MAPA, MDS, MDA, EMBRAPA, CONAB, e do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, assumiu a organização do evento que se realizará pela primeira vez no país, entre os dias 22 e 24 de setembro de 2009, em Brasília, DF. A ABH é uma das entidades que apóiam essa iniciativa que pretende fomentar o debate sobre as experiências dos países que buscam por meio da articulação de políticas públicas, promover o aumento do consumo seguro, da produção sustentável e do abastecimento ampliado de frutas e hortaliças na perspectiva da segurança alimentar e nutricional, da alimentação saudável e adequada e da promoção da saúde.


Paulo César Tavares de Melo
Presidente da ABH

Fonte: Revista Cultivar HF, junho-julho 2009, Ano VIII, Nº 56, p.35.



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