Associação Brasileira de Horticultura | Terça-feira, 16 de Janeiro de 2018  
 
 
 
 



RECONHECIMENTO JUSTO
Autor: Paulo César Tavares de Melo
Hiroshi Ikuta, primeiro professor de Genética e Melhoramento de Plantas da ESALQ, é homenageado durante o 49º Congresso Brasileiro de Olericultura (CBO)


A coluna da ABH dessa edição é dedicada ao Prof. Dr. Hiroshi Ikuta, homenageado como Presidente de Honra do 49º Congresso Brasileiro de Olericultura (49º CBO) realizado de 3 a 7 de agosto passado em Águas de Lindóia, SP.

Atendendo a um pedido da ABH, o Prof. Dr. Norberto da Silva, da UNESP/Faculdade de Ciências Agronômicas, campus de Botucatu, SP, um dos mais destacados discípulos do Prof. Ikuta, escreveu o texto que se segue, adaptado ao espaço disponível nessa coluna.

O Prof. Dr. Hiroshi Ikuta nasceu em 1929, em Mogi das Cruzes, município que integra uma das regiões mais importantes de cultivo de hortaliças do estado de São Paulo. Criado entre produtores de hortaliças e frutas, incluindo sua própria família, ingressou na Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" (ESALQ) em 1950, graduando-se em 1954, entre os dezoito primeiros Engenheiros Agrônomos descendentes de japoneses no Brasil. Na ocasião, haviam crescido em importância os programas de melhoramento de hortaliças desenvolvidos no Departamento e Instituto de Genética da ESALQ desde 1945, sob a liderança do Prof. Marcílio Dias. Por conta disso, em 1960, por meio de um convênio de cooperação técnica entre a extinta Cooperativa Agrícola Mista de Mogi das Cruzes e a ESALQ, foi instalada uma Estação Experimental de Hortaliças em Mogi das Cruzes. Os seus principais objetivos eram a pesquisa, o fomento e o treinamento de pessoal para o desenvolvimento da olericultura e continuidade dos programas de melhoramento de hortaliças da ESALQ no centro da mais importante região produtora. A ESALQ ficou responsável pela orientação técnico-científica, administração e manutenção da estação, para a qual o Prof. Ikuta foi contratado, em 1960. Vale destacar que ele foi o primeiro professor de Genética e Melhoramento de Plantas descendente de japoneses da ESALQ.

Em 30 anos de serviços prestados, enquanto professor da ESALQ, o Prof. Ikuta exerceu atividades de pesquisa e extensão com hortaliças que contribuíram incontestavelmente para o desenvolvimento e o progresso da olericultura brasileira. Ele é considerado o pioneiro da produção e utilização de híbridos de hortaliças no Brasil. Seu trabalho de determinação de auto-incompatibilidade para produção de híbridos de repolho foi desenvolvido há mais de 40 anos. Vários outros se seguiram, incluindo a produção e a adaptação de híbridos de couves-flores de verão, cujas populações-base para obtenção de linhagens continuam sendo utilizadas até hoje. Realizou o primeiro estudo sobre híbridos de pimentão pelo cruzamento de populações do grupo "Casca Dura". Foi pioneiro também na produção de híbridos de berinjela. O seu híbrido F100 foi líder de mercado durante muitas décadas devido ao grande incremento de produtividade. Por essa razão, substituiu totalmente a utilização de cultivares comuns de berinjela e ainda hoje constitui a base dos híbridos comerciais dessa hortaliça no Brasil.
Em viagem ao Japão, observou o comportamento da cultivar de cenoura Kuroda com adaptação a regiões de clima quente e a introduziu no Brasil. Por meio de um programa de seleção para formato cilíndrico de raiz, preferido no mercado brasileiro, obteve a primeira população de cenoura para cultivo no verão. É conhecida sua participação no cruzamento e seleção inicial da população que originou a cultivar de cenoura Kuronan, liberada pela Embrapa Hortaliças.

A relevância dos resultados da pesquisa do Prof. Ikuta para a olericultura nacional por si só o fazem um dos maiores pesquisadores do Brasil na área, mas não são somente esses resultados que o dignificam. Ele é, acima de tudo, um homem desprendido, um compartilhador de idéias, ensinamentos e de sementes.

Aposentado da ESALQ há quase 15 anos, felizmente não parou de desenvolver projetos de pesquisa em sua propriedade em Mogi das Cruzes. Nos últimos anos selecionou e desenvolveu técnicas de multiplicação e produção de xaxim, espécie ameaçada de extinção e de coleta proibida no Brasil, que permitem crescimento rápido de plantas obtidas a partir de sementes. Vem se dedicando também ao melhoramento do gênero Oncidium (Chuva-de-ouro), visando estender o período de florescimento para corte de flores e obtenção de híbridos entre espécies diferentes desse grupo de orquídeas com novas características para o mercado.

Apesar de ter recebido várias honrarias, incluindo o "Prêmio Marcilio Dias", da ABH, o que mais impressiona na personalidade do Prof. Ikuta é a maneira natural e simples com que transforma temas complexos em resultados de pesquisa para a olericultura do Brasil. Uma de suas frases marcantes referindo-se a populações melhoradas de hortaliças foi: "Se você tiver algum material genético importante deve cedê-lo para outros, assim se perder saberá onde encontrá-lo". Essa filosofia define a personalidade desse cientista que engrandece e dignifica a olericultura brasileira e que em reconhecimento às suas inestimáveis contribuições foi homenageado pelo 49º CBO.


Paulo César Tavares de Melo
Presidente ABH

Fonte: Revista Cultivar HF, agosto-setembro 2009, Ano VIII, Nº 57, p.39.


Voltar para a página anterior
Associação Brasileira de Horticultura 1999-2012. Todos os direitos reservados.