Associação Brasileira de Horticultura | Quarta-feira, 17 de Janeiro de 2018  
 
 
 
 



ALIMENTO SAUDÁVEL
Autor: Paulo César Tavares de Melo
A busca de alternativas para aumentar a demanda por hortifrutis foi o foco do V Congresso Pan-americano de Incentivo ao Consumo de Frutas e Hortaliças para a Promoção da Saúde


O consumo de hortaliças e frutas decresce enquanto o de alimentos com alta densidade energética e ricos em sal, e de bebidas açucaradas, está mostrando vigoroso crescimento. Para ilustrar essa situação, a maior engarrafadora de refrigerantes cola da América Latina, de capital mexicano, anunciou, recentemente, crescimento de 30,4 % no seu faturamento no segundo semestre de 2008. O lado mais lamentável desse fato é que o México ostenta o maior consumo per capita/ano mundial de refrigerantes e, em conseqüência, índices alarmantes de obesidade em todas as faixas etárias da população.

O que se constata hoje, é que a dieta dos países da América Latina tem contribuído incontestavelmente para o aumento dramático da obesidade e de doenças crônicas não transmissíveis, independentemente da classe social. Ademais, mudanças no estilo de vida das famílias das grandes cidades de todo o mundo também são apontadas como um dos fatores que contribuem para o agravamento dessa situação. Com efeito, as pessoas estão morrendo pela boca por conta de uma dieta baseada em alimentos não-saudáveis, altamente calóricos e de baixo valor nutritivo, "criados" pela poderosa indústria de alimentos. De modo geral, o valor de mercado desses alimentos ultraprocessados, ou seja, aquilo que o consumidor está disposto a pagar por eles, depende muito mais da força de marketing do que de qualquer outro argumento. Além disso, o lançamento desses "novos" produtos em novas e atrativas embalagens ocorre de modo incessante e mediante estratégias de publicidade cada vez mais eficientes e sofisticadas, direcionadas a diferentes segmentos do mercado consumidor. No entanto, lamentavelmente, as crianças são o alvo principal. Para cada 500 dólares investidos pelos grandes grupos transnacionais da indústria alimentícia em propaganda de biscoitos, salgadinhos, fast-food, guloseimas, refrigerantes entre outras comidas processadas, apenas um dólar é gasto para promover alimentos saudáveis como frutas e hortaliças. O que é mais grave, o alvo dessas propagandas, em especial, veiculadas pela televisão, é o público infanto-juvenil, onde os produtos estão associados a brindes e a super-heróis. A relação entre obesidade infantil e publicidade de alimentos é muito clara na opinião de especialistas da Organização Mundial da Saúde (OMS). Na visão deles, essa publicidade parte de um princípio perverso, pois se vende um desejo a quem não tem os meios nem a autonomia para realizá-los. Por conta disso, em todo o mundo, inclusive no Brasil, vem sendo ampliada a discussão sobre a regulamentação da publicidade de alimentos e bebidas destinada a esse público.

A verdade é que o consumo de hortifrutis na maioria dos países latino americanos é irrisória, ficando entre 100 a 150 g/habitante/dia, enquanto o mínimo recomendado pela OMS é de 400 g/habitante/dia. O fato é que tais alimentos são, em geral, muito caros principalmente para a população de baixa renda. No caso do Brasil, a situação se torna emblemática quando é feita a comparação dos preços dos hortifrutis com os dos gêneros alimentícios básicos como feijão, arroz, macarrão e carne de frango. Em 2006, o gasto mensal domiciliar do brasileiro era de R$ 1369,00 e desse total, o gasto médio mensal com alimentação correspondia a R$ 280,00 sendo que a compra de hortifrutis representava apenas R$ 36,00.

Esses foram alguns dos assuntos discutidos durante o V Congresso Pan-americano de Incentivo ao Consumo de Frutas e Hortaliças para a Promoção da Saúde, realizado de 21 a 24 de setembro passado em Brasília, DF. A comissão organizadora do evento, encabeçada pela Coordenadoria Geral das Políticas de Alimentação e Nutrição (CGPAN), do Ministério da Saúde, teve a participação de representantes do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Ministério do Desenvolvimento Agrário, Ministério do Meio Ambiente e Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Contou, ainda, com o apoio da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, ABH, Embrapa Hortaliças, INCA, CONAB e CONSEA.

O tema central do evento foi a promoção da saúde a partir da ênfase na construção de um modelo de consumo de alimentos saudáveis e produzidos de forma sustentável, reunindo diversas áreas e setores cujas ações são determinantes na qualidade de vida e saúde da população. Nesse propósito, foram conjugados esforços das áreas do desenvolvimento social e segurança alimentar e nutricional, do abastecimento, da alimentação escolar, da agricultura familiar, da produção hortícola, da pesquisa científica, do meio ambiente e da cultura.

A participação também foi multissetorial, envolvendo discussão conjunta de nutricionistas, agrônomos, setor produtivo de abastecimento, antropólogos, médicos e outros profissionais ligados à saúde pública, em busca de saídas para essa dramática situação.

O grande mérito desse evento pan-americano, em relação aos realizados anteriormente, pode ser atribuído aos diversos enfoques abordados sobre as diferentes políticas de alimentação e nutrição, levando em consideração a soberania alimentar de cada país, suas peculiaridades sociais, econômicas e culturais. Ficou patente, ainda, que todo reforço à ação intersetorial e à mobilização de parcerias em prol de uma alimentação saudável e adequada deve ser ampliado aos cenários acadêmicos e políticos, com o firme compromisso de se construir políticas públicas que busquem atender às demandas de uma sociedade participativa, mobilizada para a defesa da saúde e ciente de seus direitos.

Foi consenso entre os participantes de que nada valem ações pontuais, mas que é preciso uma campanha governamental forte, a exemplo do que foi ou vem sendo feito com sucesso para estimular a amamentação e a redução do consumo de tabaco.

Durante o evento foi consolidada a formação do Comitê Latino-Americano de Incentivo ao Consumo de Frutas e Hortaliças composto por representantes da Argentina, Chile, Colômbia, Venezuela, México e Brasil. O presidente da ABH foi escolhido como o representante do Brasil no comitê que será coordenado pela Dra. Janine Coutinho, da OPAS Brasil. Além da missão de dar continuidade à realização dos Congressos Pan-americanos de Incentivo ao Consumo de Frutas e Hortaliças para a Promoção da Saúde, o comitê discutiu a oportunidade de estabelecer uma rede latino-americana virtual, para discutir em base permanente aspectos sociais, econômicos, nutricionais, políticos e culturais que giram em torno da temática relacionada às hortaliças e frutas e seu consumo para a promoção da saúde.

Paulo César Tavares de Melo
Presidente da ABH

Fonte: Revista Cultivar HF, outubro-novembro 2009, Ano VIII, Nº 58, p.39.

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