Associação Brasileira de Horticultura | Quarta-feira, 17 de Janeiro de 2018  
 
 
 
 



VITÓRIAS E DESAFIOS
Autor: Paulo César Tavares de Melo
No balanço da última década no Brasil, o setor de hortaliças alcançou saldo positivo devido principalmente a investimento em inovações tecnológicas nos sistemas de cultivo, que resultaram em aumento da competitividade e novos patamares de desenvolvimento. No entanto, há gargalos que precisam ser suplantados ao longo dos próximos dez anos.


Nesta edição, pretendemos mostrar sucintamente fatos positivos ocorridos na primeira década do século XXI e os gargalos que persistem na cadeia de hortaliças do Brasil. Daremos ênfase aos avanços no setor de produção e nas mudanças ocorridas nos canais de comercialização e no marketing voltado a iniciativas para aumentar o consumo de hortaliças.

O balanço da década foi altamente positivo na medida em que o setor alcançou novos patamares de desenvolvimento e aumento da competitividade. Esse progresso foi consequência dos investimentos em inovação tecnológica nos sistemas de cultivo das principais culturas e na disponibilização de maquinário, insumos e materiais modernos para o setor produtivo. Com isso, houve uma melhoria acentuada no campo, com aumento de produtividade da maior parte dos cultivos, destacando-se tomate, batata, cebola, cenoura, melão, melancia, morango, beterraba e brássicas. Essa evolução fica evidente ao se comparar a produção brasileira de hortaliças entre 1998 e 2008. Em 1998, a produção alcançou 11,5 milhões de toneladas em área de 778.000 hectares. Por sua vez, em 2008, a produção e área atingiram 19,3 milhões toneladas e 808.000 hectares, respectivamente, correspondendo a 12,4 % do PIB do agronegócio brasileiro, que foi de R$ 163,5 bilhões. Entretanto, o feito mais digno de destaque é que, mesmo com acréscimo de apenas 3,8 % na área cultivada, a produção e a produtividade cresceram 68 % e 62 %, respectivamente.

Existem outras razões que ajudam a entender esse extraordinário crescimento da produção e da produtividade e uma delas se deve à consolidação das fronteiras de produção de hortaliças que se estabeleceram em São Gotardo (MG), Cristalina (GO) e Chapada Diamantina (BA) a partir da década de 90. Outros pólos produtores de hortaliças, como o do Sul de Minas Gerais, também mostraram notável desenvolvimento na década passada.

Outra constatação relevante é que, nos últimos anos, os diversos setores da cadeia de hortaliças investiram na busca permanente por inovação tecnológica que propiciou uma formidável segmentação varietal em resposta aos anseios dos consumidores cada vez mais ávidos por novidades e exigentes em qualidade. Com efeito, verifica-se, nos pontos de venda, aumento da oferta de hortaliças diferenciadas do padrão convencional que imperava no mercado há alguns anos, seja em tamanho, cor e sabor. A estratégia é surpreender o cliente constantemente com novidades. Basta uma ida ao setor de hortifrutis de supermercados e varejões para que o consumidor se encante com o festival de cores, formatos e tipos variados de hortaliças como alface, brócolis, pimentão, pimenta, berinjela, abobrinha, tomate, melão entre outras. E as novidades não param por aí. Basta observar o setor das minihortaliças, com destaque para tomate cereja de vários formatos, tonalidades e sabor, berinjela, pepino, alface, chuchu, melancia sem sementes, além da cenourete e da baby leaf, novidade recentemente introduzida no mercado. Não se deve esquecer também do espaço reservado às hortaliças exóticas como as endívias, bucha comestível, pepino amargo entre outras. Outro segmento com grande diversificação no período foi o de cogumelos. Antigamente, o consumidor só encontrava à venda o champignon de Paris em conserva para uso no strogonoff, enquanto que, hoje, os saudáveis cogumelos shiitake, shimeji branco, shimeji preto, pleurotus, salmon e o cogumelo do sol estão à disposição para consumo in natura.

Desde a década passada, as hortaliças minimamente processadas sem conservantes químicos, disponíveis em embalagens pequenas e atrativas e prontas para serem consumidas, vem ganhando visibilidade nas gôndolas e passaram a fazer parte do cotidiano, sobretudo dos consumidores de maior poder aquisitivo que buscam cada vez praticidade e a conveniência encontrada nesses alimentos.

Da mesma forma, houve aumento da comercialização de hortaliças orgânicas e o segmento vem se consolidando a cada ano, com oferta diversificada de produtos, porém, com patamares de preços que só atendem a uma pequena parcela de consumidores, em geral, dos médios e grandes centros urbanos do país.

Do ponto de vista dos canais de comercialização, ocorreram também mudanças expressivas e a logística de toda a cadeia evoluiu para uma melhoria substancial no manuseio e na exposição dos produtos nos pontos de venda do varejo. O fato é que, nos últimos anos, a feira-livre cedeu lugar às lojas das redes de autosserviços espalhadas pelo país que investem cada vez mais em ambientes modernos e limpos, com boa iluminação, com decoração atrativa, climatizados e que oferecem outros serviços aos consumidores. De acordo com resultados de pesquisa realizada pelo LatinPanel e divulgados na edição de novembro passado na Revista SuperVarejo, da Associação Paulista de Supermercados, atualmente, 62 % dos lares brasileiros compram frutas e hortaliças nos supermercados e hipermercados, fazendo com que o autosserviço já responda por 41 % dos gastos totais mensais com esses alimentos.

A despeito dos avanços conquistados na cadeia produtiva brasileira de hortaliças nos últimos anos, existem ainda gargalos que precisam ser suplantados no decorrer dessa nova década que se inicia. Entre eles destacamos o desafio de aumentar o consumo de hortaliças no país, que é muito baixo especialmente nas camadas de menor poder aquisitivo. A pesquisa do LatinPanel indica que o brasileiro gasta apenas R$ 35,00 com hortifrutis do total de sua renda mensal média, estimada, em 2008, em R$ 1.500,00. Em contrapartida, existem no país mais de 30 iniciativas de estímulo ao consumo de hortifrutis, envolvendo setores de abastecimento público e privado, saúde, educação, agricultura e meio ambiente. Esses dados fazem parte de enquete conduzida pelo Instituto Nacional do Câncer e divulgada durante o V Congresso Pan-americano de Incentivo ao Consumo de Hortaliças e Frutas realizado em setembro de 2009, em Brasília, DF. Todavia, a abrangência da maioria dessas ações é limitada e não tem um elo articulador. Como ressaltou a pesquisa do LatinPanel, torna-se imprescindível realizar pesquisas visando entender e conhecer com mais detalhes o perfil, os hábitos e o comportamento dos consumidores de hortifrutis.

E, para concluir, citamos as palavras de Emílio Odebrecht em sua coluna publicada na Folha de São Paulo em 31 de janeiro passado: "Costuma-se dizer que o futuro depende de hoje e o progresso é um processo cumulativo, daí ser imperativo pensar nos desafios que temos ainda pela frente para que preservemos o que já foi conquistado e avancemos ainda mais. Não devemos nos esquecer de que as vitórias de hoje devem ser tratadas como as sementes de amanhã".


Paulo César Tavares de Melo
Presidente da ABH
Arlete Marchi Tavares de Melo
Pesquisadora Científica, Instituto Agronômico (IAC)


Fonte: Revista Cultivar HF, janeiro 2010 - Março 2010





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