Associação Brasileira de Horticultura | Terça-feira, 16 de Janeiro de 2018  
 
 
 
 



SAFRA RECORDE
Autor: Paulo César Tavares de Melo
IV Congresso Brasileiro de Tomate Industrial ocorre em momento especial para o setor, com o Brasil galgando degraus no ranking dos maiores produtores para o processamento


"Eficiência, Competitividade e Qualidade" foi o tema central do IV Congresso Brasileiro de Tomate Industrial, realizado de 17 a 19 de novembro passado, em Goiânia, e do qual tive o privilégio de ser o Presidente de Honra. O evento reuniu profissionais do setor privado e instituições públicas de pesquisa, ensino e extensão ligados aos diversos elos da cadeia agroindustrial do tomate. Dessa forma, transformou-se em um importante referencial para o intercâmbio de conhecimentos, experiências e tecnologias inovadoras abrangendo a produção, processamento industrial e o comércio dos derivados de tomate no Brasil e em escala mundial.

O evento desse ano transcorreu em um momento especial para o setor de agroprocessamento do tomate do país, com destaque para a produção goiana. A safra 2010, encerrada na semana de realização do evento, foi estimada em 1,8 milhão de toneladas e rendimento médio de 84 t/ha, um recorde histórico. Com efeito, alta produção e alto rendimento são uma combinação que raramente acontece no setor. Esse resultado coloca o Brasil na 5ª posição no rank dos dez maiores produtores mundiais de tomate para processamento, de acordo com o Conselho Mundial de Tomate para Processamento, com sede na França. É importante destacar que, entre 2005 e 2009, a produção brasileira ficou em torno de 1,1 milhão de t/ano. Portanto, a produção média de matéria-prima de tomate desse período comparada com a obtida na safra deste ano mostra um robusto incremento de produção de 61 %.

Fato digno de nota é que, há 20 anos, a produção de tomate rasteiro para fins de processamento industrial no cerrado goiano era estimada em apenas 80 mil toneladas para uma área plantada de 1780 hectares. Em pouco mais de duas décadas, o cerrado goiano se converteu na região mais importante de produção de tomate industrial, sendo responsável, atualmente, por 76 % da produção nacional e, o estado de Goiás concentra a grande maioria das empresas processadoras de tomate do país.

Outro fato que ilustra o excelente momento que atravessa o setor de atomatados do Brasil é o crescimento de 17 %, em valor de mercado, ocorrido de 2007 a 2010. As projeções indicam que, nos próximos anos, esse crescimento poderá ser ainda maior uma vez que o consumo interno deverá continuar aquecido. A rigor, a conjunção do real apreciado que torna o produto brasileiro com pouca competitividade no comércio exterior, com a inclusão de consumidores da chamada "nova classe média", há décadas sem poder de compra, mostra de forma contundente que o cenário não poderia ser diferente. Ademais, historicamente, os atomatados produzidos no país destinam-se ao abastecimento do mercado interno, sendo exportado apenas um volume pouco representativo da produção de polpa e produtos acabados brasileiros. Isso não implica, todavia, em desinteresse das empresas de ampliar suas exportações, principalmente para o MERCOSUL, onde a qualidade do produto made in Brazil atende às exigências dos países que formam esse bloco de mercado.

A questão que surge naturalmente é se, no momento, a capacidade instalada de processamento das fábricas é suficiente para atender ao continuado crescimento da demanda interna por derivados de tomate e ainda ter excedentes para exportar. É sabido que a safra deste ano seria ainda maior se tivessem sido contabilizadas as perdas da ordem de 132 mil toneladas de matéria-prima de tomate, que deixaram de ser processadas por que as fábricas não tiveram capacidade de esmagamento. No entanto, especialistas do setor não demonstram preocupação com essa situação. Historicamente, a indústria nacional importa expressivos volumes de polpa concentrada de tomate que são estrategicamente utilizados para reduzir custos de estocagem durante a entressafra e também para complementar déficits eventuais de produção de polpa concentrada quando ocorre frustração de safra no país. As safras de 2008 e 2009 são bons exemplos em vista da significativa quebra da expectativa de colheita de matéria-prima de tomate ocorrida devido a problemas climáticos e à incidência de doenças.

A despeito das conquistas verificadas na cadeia de agroprocessamento do tomate ao longo da década passada, é preciso caminhar para uma nova fase onde sejam contempladas ações que contribuam para a superação dos gargalos que ameaçam a sustentabilidade e a expansão da atividade. O grande desafio para o setor produtivo é continuar avançando tecnologicamente no manejo cultural, buscando incremento ainda maior da produtividade, redução de custos e aumento da rentabilidade por tonelada de matéria-prima de tomate entregue às indústrias processadoras. Desafio maior ainda é realizar esse objetivo com sustentabilidade e consciência de preservação ambiental e racionalidade no uso da água de irrigação. Da mesma forma, a questão do uso racional de agrotóxicos deverá ser uma preocupação permanente do setor produtivo, sobretudo, se houver expansão das remessas de polpa e produtos acabados de tomate para o exterior.
Outra ameaça que enseja solução no prazo mais curto possível, mas que depende de ações governamentais é a necessidade de ampliação da oferta de energia elétrica. Na atualidade, já existe desequilíbrio entre a oferta e a demanda de energia, trazendo dificuldade para planejar o crescimento da atividade agroprocessadora do tomate no cerrado goiano, assim como a sua sustentabilidade. A rigor, ampliar a oferta de energia é um dos grandes desafios do novo Governo Federal, que tem o compromisso de dar continuidade ao círculo virtuoso de crescimento da economia brasileira.


Paulo César Tavares de Melo
Presidente da Associação Brasileira de Horticultura

Fonte: Revista Cultivar HF, dezembro 2010-janeiro 2011, Ano IX, Nº 65, p.37.

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