Associação Brasileira de Horticultura | Sexta-feira, 19 de Janeiro de 2018  
 
 
 
 



LOGÍSTICA COMPLICADA
Autor: Paulo César Tavares de Melo
Transporte caro, inadequado, manuseio incorreto e acondicionamento precário estão entre os gargalos enfrentados na produção, comercialização e distribuição de hortaliças, alimentos que percorrem um longo e penoso caminho até chegar à mesa dos consumidores


O jornal O Estado de São Paulo publicou em 27/01/2011 excelente artigo de autoria de Alysson Paulinelli sobre a nova crise de alimentos em que o ex-ministro da Agricultura faz contraponto com os avanços da agricultura brasileira nas últimas décadas. Ele ressalta que "as vistas de todo o mundo se voltam para o potencial produtivo de suas regiões tropicais e, logicamente, para as tecnologias e capacidade produtiva desenvolvidas no Brasil nos últimos anos do século 20". Todavia, entre outras recomendações, pede "que não se esqueçam da nossa logística, hoje tão limitante". Pois bem, é sobre a logística das hortaliças que dedico esta coluna. Na verdade, o tema foi inspirado na série de reportagens que integram o projeto 'Na Estrada' que foi ao ar pelo Canal Rural entre 11 de maio de 2010 e 23 de janeiro de 2011.

A equipe do projeto percorreu mais de 10 mil quilômetros ao longo de 10 Estados brasileiros mostrando a realidade atual do transporte rodoviário nas mais diversas regiões do Brasil agrícola. Na última reportagem, transmitida em 23 de janeiro passado, foram mostradas as principais etapas da complexa logística da produção, distribuição e comercialização de hortaliças no Brasil.

Quem assistiu à reportagem pode observar os enormes desafios que os produtores de hortaliças enfrentam no dia-a-dia e os muitos caminhos que elas percorrem até chegar à mesa do consumidor dos quatro cantos desse país. No rastro dessa verdadeira epopeia, ficaram patentes as enormes perdas que tem como principal causa a falta de cuidados no momento da colheita e por todas as etapas pós-colheita até o consumo. Estimam-se que as perdas do setor desde o momento da colheita até à mesa do consumidor sejam da ordem de 30 a 35 %.
Não é de hoje que a logística das hortaliças é reconhecidamente precária no país. Há anos que os diversos agentes da cadeia produtiva advertem sobre o acondicionamento desses produtos em embalagens inapropriadas, bem como acerca do manuseio incorreto na fase pós-colheita, incluindo classificação, técnicas de carga e descarga obsoletas, transporte em veículos inadequados e armazenamento inapropriado. A soma dessas sucessivas operações acarreta danos ao produto e a sua qualidade é depreciada até chegar aos mercados atacadistas ou varejistas.

A rigor, nas últimas décadas, o quadro se complicou ainda mais porque o setor produtivo, especialmente no Sudeste, tem migrado das regiões produtoras tradicionais para áreas de melhor aptidão para o cultivo de hortaliças. Como tais áreas são distantes dos principais centros de consumo do país, o caminho percorrido pelas hortaliças acaba aumentando assim como o preço para o consumidor final. A reportagem mostrou o longo caminho percorrido pela beterraba produzida na serra gaúcha até o mercado varejista de Belém do Pará. O produto primeiramente deu um 'passeio' até a Ceasa Curitiba e, de lá seguiu para Belém em caminhão não-frigorificado, numa viagem de mais de 3.000 km que pode durar uma semana.

A reportagem documentou o dia-a-dia da CEAGESP (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo), maior mercado atacadista de hortifrutícolas da América Latina. As perdas estimadas nesse mega entreposto são da ordem de 15 % das cerca de 10 mil toneladas desses produtos diariamente comercializados. Lamentavelmente, a embalagem de hortaliças que ainda predomina na CEAGESP é a famigerada caixa K. Embora, nos últimos anos, a utilização de caixas de papelão e de plástico venha crescendo, a administração da CEAGESP reconhece que a situação só será resolvida quando for implantado o sistema de banco de caixas. A proposta desse sistema é armazenar, comercializar e higienizar caixas plásticas para eliminar paulatinamente as caixas de madeira e de papelão.

O fato é que a maioria das centrais de abastecimento (CEASAS) possui infra-estrutura obsoleta e não oferece tecnologia compatível com as características dos produtos nem com as exigências do mercado consumidor. É louvável a iniciativa de produtores paulistas que têm apostado na diversificação da produção e na comercialização de hortaliças folhosas prontas para o consumo. Os diferentes tipos varietais dessas hortaliças são devidamente higienizados, cortados e embalados em sacos plásticos e comercializados diretamente com supermercados e varejões. Com isso, eles conseguem aumentar a rentabilidade de sua atividade ao mesmo tempo em que reduzem significativamente as perdas. Em geral, as perdas nos pontos finais de venda são da ordem de 20 % caindo para apenas 5 % quando o produto já chega devidamente embalado.

Outro gargalo importante que afeta o agronegócio brasileiro de modo geral, abordado no 'Na Estrada', é o alto custo de frete. Essa realidade está diretamente relacionada à deficiente infra-estrutura logística existente no país, com destaque para a má conservação das rodovias e à inadequação da maioria dos portos.

O que se viu nessa reportagem final do projeto foi um retrato acabado da complicada logística das hortaliças no Brasil.
Apesar de alguns avanços verificados nos últimos anos, ainda persistem gargalos que não têm solução à vista. Algumas iniciativas exibidas no projeto são bem vindas, mas representam apenas uma pequena parte da solução. Pelo que se pode ver, fica patente a ausência de um elo que faça a articulação e a coordenação da cadeia de hortaliças. Com efeito, as grandes redes varejistas têm assumido este papel, mas é preciso que os pequenos produtores se organizem para ter acesso a essa nova realidade de comercialização. Diante disso, o papel do Estado torna-se relevante como planejador e definidor de prioridades e ações permanentes para o setor.

Em dado momento da matéria final do projeto 'Na Estrada', o repórter Gustavo Bonato chega à conclusão que: "O Brasil que produz ainda não possui um caminho fácil e barato para chegar ao Brasil que consome". E termina a reportagem dizendo que: "Neste projeto a gente vê que o Brasil é muito maior do que se pensa; se dá conta que a força nesse país está no trabalho dos catadores de laranja, de cocos, de açaí e na inteligência administrativa dos produtores de frutas e hortaliças, sem falar no esforço de tantos caminhoneiros que levam as cargas por todo esse nosso território. São milhões de braços que saem para trabalhar sob o sol forte ou frio intenso todo dia para alimentar tantos outros milhões de brasileiros".

Em nome dos associados da ABH parabenizamos toda a equipe da excelente série de reportagens do projeto 'Na Estrada', do Canal Rural.


Paulo César Tavares de Melo
Presidente da Associação Brasileira de Horticultura

Fonte: Revista Cultivar HF, fevereiro-março, 2011, Ano X, Nº 66, p.37.

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