Associação Brasileira de Horticultura | Sexta-feira, 28 de Novembro de 2014  
 
 
 
 


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GERAL » Doce para o Bolso e Picante no Paladar

  
  
Raphael Veleda

Presentes por toda a extensão do continente americano, as pimentas gozam de prestígio com o ser humano há muito tempo. Os primeiros registros de consumo desse condimento datam de aproximadamente nove mil anos, segundo revelaram explorações arqueológicas em Tehuacán, México.

No Brasil, a história da pimenta também é longa. Quando os portugueses aqui chegaram, em 1.500, já encontraram os índios cultivando a planta em larga escala, e não hesitaram em levá-la para a Europa, onde foi muito bem aceita. Agora, os agricultores brasilienses redescobrem a cultura como opção lucrativa para a lavoura e apostam alto. Fevereiro é época de plantar.

A espécie que ganha força no Distrito Federal, no entanto, não é destaque em campeonatos de ardor, mas tem lugar em vários tipos de tempero e até na salada. É a pimenta-de-cheiro, cada vez mais presente em prateleiras de verdurões e supermercados. Herança da migração de nordestinos e nortistas, segundo o pesquisador da Embrapa Hortaliças, Geovani Bernardo Amaro, que trabalha com a planta. "Sobretudo do Norte, onde essa espécie é bem tradicional", ressalta Amaro.

Plantio cresce

Mais do que a bagagem cultural, no entanto, o sucesso do cultivo da pimenta-de-cheiro dos vizinhos de chácara está sendo determinante para o crescimento da produção no Distrito Federal. O agricultor Nilson Amaral de Souza, 35 anos, é um exemplo disso. Há 19 anos ele trabalha com a terra no Núcleo Rural Pipiripau, na região de Planaltina (DF).

"Sempre plantei tomate. É minha formação", garante Nilson. Há dois anos, no entanto, ele resolveu apostar um pouco na pimenta. "Plantei 250 pés e gostei", relata. "A pimenta não tem muito segredo, é fácil de plantar e de cuidar", comenta o agricultor. Nilson percebeu as boas possibilidades proporcionadas pelo cultivo da pimenta-de-cheiro, justamente, com o sucesso nas chácaras vizinhas.

Em 2006, Nilson aumentou a lavoura de pimenta-de-cheiro para 400 pés. "Eu vendo parte para Ceilândia e parte para Formosa e o cliente sempre pede mais", afirma o agricultor, que agora resolveu apostar tudo na pimenta. "Estou com 1.400 mudas para plantar agora em fevereiro. Com essas, a lavoura de pimenta vai ultrapassar a do tomate e se tornar minha maior cultura", adianta Nilson, animado com a mudança.

Rentabilidade

A rentabilidade rápida que a cultura possibilita é o que mais atrai o produtor. A Pimenta de Cheiro é colhida a cada 15 dias e produz durante mais de seis meses. pra um bom pegamento das plantas, as mudas devem ser plantadas em fevereiro, durante o ciclo de chuvas. Em cerca de quatro meses as plantas começam a produzir frutos e a colheita vai de junho a janeiro.

"Há dois jeitos de escoar a produção - na bandeja de isopor e na caixa de 10 quilos", explica o agrônomo Geraldo Magela Gontijo, gerente da Emater/DF de Pipiripau. "A bandeja, eles vendem variando entre R$ 0,80 e R$ 1, já a caixa com 10 quilos varia de R$ 10 a R$ 30.

Esses preços animam muito o pessoal, e tem cada vez mais gente plantando", conta Magela. Para quem quiser entrar na atividade, a Emater/DF fornece orientação técnica aos produtores. Além do Pipiripau, as áreas rurais de Ceilândia e Brazlândia também estão investindo bastante na pimenta. Não há, no entanto, números consistentes sobre produção e área cultivada. Um pé de pimenta-de-cheiro, se bem tratado, produz até cinco quilos do frutos durante sseu ciclo produtivo.

Faltam pimentas no Brasil e no exterior

A falta de estatísticas, aliás, é um dos entraves a serem resolvidos na busca pela profissionalização da produção de pimenta. Segundo o pesquisador Geovani Bernardo Amaro, da Embrapa Hortaliças, a situação do DF se repete no resto do País. "Faltam números. Não temos noção do tamanho da produção, mas estamos trabalhando nisso. Há pouco, fui a São Paulo visitar a Ceagesp (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo), para levantar dados sobre venda", explica.

Segundo o pesquisador, São Paulo é o estado que mais produz pimentas em volume. "Já os grandes estados em diversidade de pimenta são Minas Gerais e Goiás, apesar de a Bahia ficar com a fama", revela. "Mas é porque os baianos se concentram na pimenta malagueta", comenta Amaro.

A Embrapa busca, também, o desenvolvimento de novas cultivares de pimenta, além do melhoramento das já existentes.

"Trabalhamos com melhoramento genético voltado ao AGRONEGÓCIO. Tanto para as grandes empresas quanto para a AGRICULTURA familiar", explica Geovani Amaro. Boa parte da pesquisa é feita em cooperação com grandes empresas, que buscam aumento na produção.

"Um dos nossos objetivos principais é padronizar a pimenta, para proporcionar maior segurança ao produtor. Não é raro comprarmos sementes no mercado que dizem ser de uma espécie, mas que, na verdade, não são", alerta o pesquisador.

Se conseguir arrumar a casa, o Brasil pode entrar para um promissor mercado internacional. Os países da União Européia, além de Estados Unidos, Japão e Canadá têm aumentado bastante as importações de pimenta e não conseguem comprar tudo o que querem.

Pesquisas

O sucesso cada vez maior da culinária asiática pelo mundo, além da forte presença hispânica explicam o aumento da procura. "No entanto, nossa produção, em sua maioria, é proveniente de pequenos produtores, que não atendem plenamente nem mesmo o mercado interno", explica Geovani Amaro.

Em setembro deste ano, a Embrapa Hortaliças deve dar ainda mais fôlego à produção de pimenta por meio da realização do 3º Encontro Nacional do AGRONEGÓCIO: Pimentas e Pimentões. "Grandes eventos como esse sempre são seguidos por um significativo aumento no número de produtores", conta Amaro. Durante o encontro deverão ser apresentados os primeiros resultados de uma nova fase de pesquisas que estão sendo desenvolvidas dobre a planta.

"No último ano, a pesquisa ficou meio parada porque a antiga pesquisadora da área foi estudar nos Estados Unidos e finalizou o projeto dela em 2006. Estou retomando agora e pretendemos fazer parcerias com a iniciativa privada", explica o pesquisador, que prefere não fazer apostas de valores investidos.

"É difícil saber o valor da verba que será destinada a essa pesquisa, porque trabalhamos por meio de editais. Mas eu espero um investimento anual de R$ 100 mil", afirma Amaro.

Rotação evita doenças

A pimenta é uma planta bastante rústica e, na chácara de Nilson Amaral de Souza, que também planta pimentão e tomate, é a única cultura que não é cultivada em estufas. Apesar disso, a cultura não está livre de doenças e pragas, que podem devastar plantações. "O perigo aumenta se não é feita a rotação de culturas. Plantar a pimenta dois anos seguidos no mesmo lugar é pedir para as pragas atacarem", alerta Geovani Amaro.

Uma das doenças mais graves é a chamada canela preta, causada por fungos. É uma das mais graves e se espalha com facilidade em ambientes úmidos. O sintoma inicial é a base do caule ficar escurecida. Se a infestação aumentar, é difícil salvar a planta da morte precoce.

Nesse ponto, há uma evidência clara da falta de profissionalização que ainda impera no cultivo da pimenta. "Não tem nenhum fungicida para pimenta registrado no Ministério da AGRICULTURA. Defensivos em geral, têm muito poucos", conta o pesquisador. "Os agricultores usam, no escuro, os que são indicados para o pimentão, mas nós não podemos incentivar isso. O caminho então é fazer essa rotação e usar cultivares resistentes", completa Amaro.

A murchadeira ou murcha-de-fitóftora é outro problema grave. É causada por uma bactéria e, em estado adiantado, deixa a planta completamente murcha, acabando com a produção. As bactérias também causam uma doença conhecida como mancha, que ataca folhas e frutos. As partes afetadas apresentam manchas encharcadas e acabam caindo, deixando a planta mais fraca. Verão quente e chuvoso favorece o aparecimento da doença.

Os vírus também representam perigos iminente para os produtores de pimenta. "Devastam uma plantação rapidamente", afirma Amaro. Plantas atacadas por vírus ficam raquíticas, com a folhagem amarelada e deformada. Os frutos também não escapam.

Faz bem à saúde e ao paladar

O ardor, picância ou pungência da pimenta existe graças a uma substância chamada capsaicina. E, apesar de ser popularmente dito que comer pimenta pode provocar males como pressão alta, gastrite, úlceras e hemorróidas, estudos mostram que a capsaicina faz bem.

A capsaicina atua como cicatrizante de feridas, antioxidante, dissolve coágulos sanguíneos, previne a arteriosclerose, controla o colesterol, evita hemorragias e aumenta a resistência física. Além disso, influencia a liberação de endorfinas, causando uma sensação de bem-estar, segundo informações da Embrapa Hortaliças.

Boa parte da produção nacional de pimentas se destina à produção artesanal de conservas. Para esse fim, a pimenta-de-cheiro não é muito indicada, porque os apreciadores procuram condimentos mais picantes nos vidrinhos, como a pimenta-de-bode. "Ela, inclusive, leva esse nome por ter aroma forte, como os bodes", explica Geovani Amaro, pesquisador da Embrapa Hortaliças. "Quem gosta, abre o vidro e já fica com água na boca", completa.

Além da pimenta-de-cheiro e da de bode, que tem o formato parecido com o da pitanga e é amarela ou vermelha quando madura, o Brasil produz comercialmente outras espécies da planta. A cumari-do-pará é uma das que tem ocupado cada vez mais espaço no campo.

Como a cumari-verdadeira não está totalmente domesticada e é difícil de produzir em larga escala, sua parente do Norte tem ganhado cada vez mais força. Com frutos triangulares com até três centímetros de comprimento e bem picante, ela é boa para fazer conservas. Seu fruto, quando maduro, é amarelo.
A murupi, que tem picância de média a alta, é muito utilizada para fazer molhos, sobretudo na Região Norte do Brasil. Lá, costuma ser misturada a um caldo (tucupi) extraído da mandioca. Seus frutos alongados, quando maduros, vão do amarelo-pálido ao vermelho-vivo, razão pela qual é bastante procurada para conservas, pois valorizam o fator visual, além de seu picante sabor característico.

Nortista

A pimenta-dedo-de-moça, também muito usada em conservas, é, ainda, uma das mais utilizadas para a produção de pimenta em flocos, usados em produtos como a lingüiça calabresa. "Isso, porque ela é grande e fácil de colher, o que barateia a mão-de-obra, um dos maiores custos da produção", afirma Geovani Amaro. A dedo-de-moça não é muito picante, sendo portanto, bastante aceita comercialmente.

Por fim, a famosa pimenta malagueta, que, apesar da fama, não é das mais pungentes - fator que pode ser mudado com as conservas. Com frutos alongados e bem vermelhos, ela tem lugar de destaque na culinária brasileira e costuma marcar presença na condimentação de peixes e outras carnes. Na Bahia, acarajé que se preze vem com uma boa dose de malagueta.

Essas pimentas citadas são variedades completamente domesticadas e já preparadas para a produção em escala industrial. O Brasil é muito rico em diversidade de espécies silvestres e semidomesticadas. "É um material muito rico", informa o pesquisador da Embrapa Hortaliças, Geovani Amaro.
"Para proteger o material genético nós conservamos, desde o início dos anos 80, o Banco de Germoplasma Capsicum, com 1.600 espécies catalogadas. Tudo isso, aqui em Brasília", informa Amaro, com orgulho.

Data de Publicação: 3/3/2009   Fonte: Jornal de Brasília - DF

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