Associação Brasileira de Horticultura | Domingo, 21 de Janeiro de 2018  
 
 
 
 



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ABH INFORMA » Presidente da ABH, Dr. Paulo César Tavares de Melo, é Entrevistado pela Revista Hortifruti Brasil

  
  
Sobrevive o Produtor que Investe em Tecnologia


Hortifruti Brasil: Qual a importância do pós-colheita para a qualidade e apresentação do tomate?

Paulo Cesar Tavares de Melo: Eu acho que o ponto mais importante precede a própria comercialização e tem a ver com o tipo de tomate dominante no mercado. O tomate que hoje tem maior participação no mercado, o salada tipo longa vida, tem vida longa de prateleira, e isso deve ser levado em conta.

Além disso, o tomate é uma hortaliça extremamente flutuante em questão de preço. A gente costuma dizer que o produtor de tomate corre atrás do preço e isso traz implicações muito difíceis ao pós-colheita. Se o valor de uma caixa de tomate vai para mais de R$ 20,00, o produtor pode estar com um tomate do tipo longa vida ainda verde, mas, mesmo assim, o colhe. Com isso, ele praticamente aniquila toda possibilidade de colocar no mercado um tomate de boa qualidade.

Se houvesse uma cooperação maior entre quem está vendendo e quem está comprando, talvez pudesse ter uma saída. Outro aspecto é a embalagem. O produtor se dedica para ter um tomate de primeiríssima qualidade e joga em uma caixa que o danifica totalmente.

Hf Brasil: Qual a perspectiva quanto à melhora do longa vida e características como falta de sabor e pouca concentração de líquido, principais problemas segundo consumidores?

Melo: Eu tenho pouca esperança de que alguma coisa possa mudar. O que eu acompanho como cientista é que as empresas sabem do problema. O tomate, junto com algumas outras hortaliças, tem sofrido bastante redução de consumo por não ter o sabor desejado. No entanto, elas podem ir apenas até um ponto. É aí que entra a questão da comercialização do fruto verde. As
empresas precisam orientar o produtor a colher o tomate no momento certo.

Apesar desse problema com a colheita, já existem novas variedades e espera-se que daqui a algum tempo cheguem ao mercado as gerações dos novos híbridos, que prolongam a vida de prateleira, mas não afetam tanto o sabor nem o aroma do fruto. A minha expectativa é que o mercado de semente consiga realizar o que todos nós estamos esperando: que o tomate que domine o mercado priorize o consumidor.

Hf Brasil: Muitos produtores têm feito verdadeiros "mix" de variedades visando melhores resultados produtivos e menores custos. Quais os benefícios e possíveis prejuízos que isso pode trazer?

Melo: Esses tomates diferenciados representam um nicho de mercado, porque o custo de suas sementes é muito elevado. O melhor exemplo é o tomate holandês, que chega ao consumidor a mais de R$ 6,00/kg e é produzido de forma 100% integrada com algumas empresas que contratam os produtores para entregar o fruto a eles. Nesses casos, há um contrato, o preço não flutua muito ao longo do ano, mas dá garantia de melhor rentabilidade para os produtores.

Para mim, a sustentabilidade desses nichos de mercado de alto valor agregado vai depender do aumento da escala de produção e da redução do nível de intermediação, que deve reduzir o custo fi nal para o consumidor.

As empresas lutam para fugir da "commoditização" do segmento, como a que aconteceu com o salada no Brasil. Por conta do pioneirismo da introdução do carmen, todo tomate salada longa vida se transformou em carmen. A partir do momento em que o mercado batizou fi ca muito difícil mudar. Hoje, a liderança desse mercado, pelo que estou informado, é de outro tomate, o alambra, o carmen vem em segundo lugar. As mais de quinze empresas que hoje disputam esse mercado brigam com o alambra e com o carmen, que detêm 80% do mercado, pelas minhas contas. Esses tomates deram uma contribuição grande à estabilidade de abastecimento, mas as empresas deveriam investir mais em educação junto ao setor produtivo para valorizar seus produtos.

Hf Brasil: Quais medidas principais os produtores devem adotar para reduzir seus custos e serem competitivos?

Melo: Hoje, o produtor de tomate no Brasil talvez seja o que tem o maior custo de produção. Além disso, como há grande fl utuação de preço, ganha quem acerta o período de cotação mais elevada. Temos também que imaginar que o produtor inefi ciente, que não consegue produzir mais de 250 caixas por mil pés, não paga os seus custos. O empate está em 300 caixas por mil pés. Já o tomaticultor profi ssional, que produz em várias áreas, ganha ao longo do ano. O problema é que o segmento de tomate é desorganizado tanto na hora de comprar quanto na de vender. Se eles tivessem uma mentalidade um pouco mais cooperativista, teriam maior poder de barganha, competitividade maior. E aí também vem outro aspecto: os canais de distribuição. Hoje, as grandes redes de supermercados se relacionam diretamente com o fornecedor. Difi cilmente um pequeno produtor que não esteja em torno de uma cooperativa ou de um grupo de produtores consegue ter acesso a essas redes. Depois vêm as centrais de abastecimento, que estão sentindo a necessidade de uma reformulação.

É preciso que o sistema ceasa evolua muito para acompanhar o dinamismo do mercado. É preciso acabar com esse negócio de o produtor anotar tudo em caderninho, na cabeça e não saber quanto custa nada. Só vai haver comercialização mais justa entre as partes, na hora em que ambas tiverem equilíbrio de informação. Como não existe isso ainda, a reclamação de que o setor de supermercado é muito duro na comercialização, que tem regras muito rígidas na comercialização, vai continuar.

Hf Brasil: Quanto à produção, será dominada por grandes produtores?

Melo: Não tenho dúvida disso. É um fenômeno que não está acontecendo só em tomate, mas em batata também e que tem tudo a ver com custo. O que está acontecendo é que os pequenos estão saindo do mercado. Algumas áreas até sumiram do mapa, como Goianápolis (GO), que hoje não tem grande participação no mercado e já foi a capital do tomate. Aqui em São Paulo mesmo temos dois grandes produtores que concentram mais de quatro milhões de pés de tomate.

Antigamente, o maior produtor da região produzia 1 milhão de pés e já era considerado o campeão dos campeões. A redução de custo implica necessariamente em efi ciência produtiva. Sobrevive quem tem realmente investido em tecnologia: mudou para variedades de potencial produtivo elevado, mudou o manejo cultural, passou a adotar fertirrigação, sistemas integrados de controle de pragas etc.

Isso já está começando, por exemplo, na batata. A batata saiu na frente com o Programa Integrado de Batata. Os supermercados já estão se interessando em colocar essa batata diferenciada, com selo de PIB nas suas gôndolas, porque sabem que o consumidor está consciente do diferencial daquele produto. Isso pode ser utilizado de maneira positiva pelo setor de tomate desde que ele se organize. Da maneira como está, é muito difícil que se implementem todas essas mudanças, porque não há liderança, não há quem os conduza para esse novo ambiente do agronegócio de hortaliças no Brasil, cada dia mais profi ssionalizado.

"A redução de custo implica necessariamente em efi ciência produtiva. Sobrevive quem tem realmente investido em tecnologia".

Paulo Cesar Tavares de Melo: é doutor em Genética e Melhoramento de Plantas; professor da ESALQ/USP; e Presidente da Associação Brasileira de Horticultura.

Para ler revista Revista Hortifruti Brasil na íntegra clique aqui.

Data de Publicação: 29/06/2006   Fonte: Revista Hortifruti Brasil

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